LIÇÃO 0001
A ORALIDADE E A ESCRITA DAS PALAVRAS
A ORALIDADE E A ESCRITA DAS PALAVRAS
[Pintura rupestre. Serra da Capivara: Piauí: Brasil]
I. A QUESTÃO. Ainda que os animais apresentem capacidade de comunicação, ela não vem necessariamente acompanhada de funcionalidades especiais como cognição antecipatória, segmento do olhar e memória episódica. No entanto, estes sistemas de comunicabilidade, outrora atribuídos apenas a seres humanos, estão presentes em muitas espécies de vida (FITCH, 2010). Em contrapartida, comunicar-se não é uma habilidade que exija linguagem. Esta, por pertencer a um campo de ação mais abrangente e complexo da existência humana participativa, associa-se melhor ao conceito de proposição (latim proposition: ação de pôr diante dos olhos; apresentação; parte de um discurso na qual se expõe o assunto a ser provado; oração). De fato, todo esse efeito proposicional é explorado com sistematização na antiguidade pelos estudos de linguagem realizados pelo filósofo Platão (V/IV a.C.), o primeiro a apontar caminhos para o entendimento da frase propositiva como certa construção sintática (oração, sentença), cujo fundamento está reforçado pelo termo grego lógos (palavra, linguagem, razão, proposição, pensamento).
II. A LINGUAGEM DA PALAVRA ORAL E ESCRITA. Bem antes dos estudos de linguagem desenvolvidos por Platão, em um passado muito distante, no imaginário popular mitológico da antiga Grécia, a arte da fala expressiva começa a desenvolver suas raízes mais profundas nas lendas e narrativas orais do deus Hermes, filho da ninfa Maia e Zeus. Conta-se que suas palavras e movimentos eram tão rápidos quanto as ideias, capazes de seduzir por completo o meio-irmão, Apolo, deus da alta vidência e do pensamento racional, que logo se encantara ao ouvir seu belo e melodioso cântico feito ao melífluo som de uma lira. Em êxtase, sob completo encantamento, o deus desejou o divinal instrumento de cordas inventado pelo jovem Hermes, e prometera dar-lhe dons divinos em troca dele, como, por exemplo, alguma capacidade profética, ou a habilidade na tarefa de ser mensageiro e guardador de almas. Assim fora. Por fim, para aumentar sua glória, Zeus, então, o promovera a mensageiro dos deuses, com a poderosa função de transitar livremente entre mortais e imortais.
Nesse mesmo mundo repleto de deuses gregos em tudo, vivera o majestoso poeta Homero (VIII a.C., aproximadamente), cantador de dois famosos poemas heróicos, Ilíada e Odisseia. Em alguns de seus versos hexamétricos (medida de verso épico), se encontra a expressão formular palavras aladas. Ela surge no Canto I de Ilíada, no contexto em que o herói Aquiles, o de pés velozes, conversa co'a deusa Athená, a de olhar dócil. Em Odisseia, a mesma fórmula também aparece no Canto I, mas é Telêmaco, filho do valoroso Odisseu, quem desta vez se dirige a Athená. Recorrente nos textos homéricos, a frase quer expressar a ideia de que as palavras são tão fluidas que voam sonoramente pelo ar, como se tivessem asas. O que mostra, além de uma literatura oral, uma visão personificada da palavra e o uso da imediata linguagem não escrita vinculado à imagem e à imaginação fantasiosa como meio de compreensão dos fatos da realidade. Nesse sentido, a expressão formular é antes de qualquer coisa um recurso próprio da oralidade, utilizado durante os cantos poéticos para auxiliar a memória do cantador.
Longe o bastante de uma visão mitológica de mundo, entre a pedagogia oral de Homero e as importantes lições de lógica escritas por Aristóteles, ainda na antiguidade dos episódios da cultura grega, já em um ambiente letrado propício ao exercício do pensamento crítico, eis que despontam ilustres pensadores da linguagem, tais como Antifonte, Protágoras, Heráclito, Parmênides, Górgias, Demócrito, Platão, cujas inegáveis contribuições são esclarecedoras até os dias de hoje.
Renomado na arte da oratória, Antifonte (V a.C.), é considerado o que melhor soube criar palavras (SPRAGUE, 1972), embora seus ensinamentos sobre linguagem estivessem submetidos a uma revolucionária tese de um dos mais notáveis oradores de todos os tempos, Protágoras (V a.C.): há, a respeito de cada coisa, pelo menos dois discursos reciprocamente contrapostos, sem haver, portanto, contradição (consulte o artigo do Prof. Luiz Felipe Bellintani Ribeiro: https://pt.scribd.com/document/180346314/UM-ANTIFONTE-MULTIPLO).
No que diz respeito a Heráclito (VI/V a.C.), seus aforismos filosóficos defendem a ideia de que a phýsis (natureza) é governada por um lógos (uma espécie de razão universal), a forma racional da linguagem, apta a compreender a existência mediante raciocínios críticos e não por meio de explicativas imagens mitológicas. Quanto a Parmênides (VI/V a.C), pode-se dizer que suas reflexões sobre a linguagem, em seu poema Sobre a Natureza, aparecem na fórmula sintática para se compreender a totalidade da existência: o ser é, o não-ser não é. Esta expressão, além de evidenciar os limites da palavra como coisa (ser), representa as linhas iniciais de uma atividade raciocinativa que atingirá seu ápice na lógica aristotélica (sugestão de leitura: www.ufjf.br/eticaefilosofia/files/2009/08/19_2_galgano.pdf). A respeito de Górgias (V/IV a.C.), o orador de discurso mágico, a história da filosofia acentua que o poder encantatório de sua retórica deve-se a usos de impactantes figuras de linguagem e outras técnicas oratórias desenvidas por ele, vistas em dois de seus poderosos discursos: Elogio a Helena e Tratado do não-ser. Acerca de Demócrito (V/IV a.C.), sabe-se que em suas atividades filosóficas dera enorme importância ao estudo ético da linguagem, levando em conta os limites da palavra frente à ação, ao criar em seus estudos investigativos um léxico bastante rico com relação a discurso e ato, (consulte o artigo da Prof.ª Miriam C. D. Peixoto: https://www.acemia.edu/12935913/Demócrito_e_a_Retórica_elogio_ou_censura).
Relativamente a Platão e sua compreensão sobre a linguagem, há duas obras essenciais: os diálogos Crátilo e Sofista. No Crátilo, por exemplo, o filósofo está preocupado se a adequação dos nomes às coisas é feita por meio de convenção, acordo social, ou se está submetida a alguma relação intrínseca entre palavra e a natureza daquilo que ela expressa e nomeia, evidenciando com essa preocupação o interesse não só por um sentido lógico e existencial para a linguagem, mas também pelo próprio ato de nomear como uma ação em si, a qual possui sua própria natureza. (Crátilo I, 383a-VI, 387d).
Após inúmeras tentativas de se descrever, na antiga Grécia, a capacidade linguística humana e seus recursos ao longo de gerações e gerações, chega a vez de Aristóteles traçar analiticamente as diretrizes mais completas para muitas questões de linguagem, ainda mais depois dos avanços feitos por Platão. Tais diretrizes se encontram, sobretudo, em dois de seus tratados de lógica: Sobre a interpretação e Analíticos primeiros. Sobre a interpretação, a título de exemplo, apresenta distinção entre os importantes conceitos de nome (grámmata = signos escritos em geral) e verbo (rhêma = o que se diz; termo do latim: verbum). Sob esse ponto de vista, Aristóteles complementa a teoria assumindo: (i) que o nome é um "som significativo por convenção, sem que indique tempo e sem que nenhuma de suas partes separas sejam significativas" (Sobre Interpretações 2, 16a19-22); (ii) que o verbo é o que significa sobretudo tempo e suas partes isoladamente também não possuem significado. É visto ainda como o signo daquilo que se diz sobre o outro. Nesse sentido, "saúde é um nome, está são é um verbo: com efeito, significa que se dá agora" (Interpret. 3,16b6-10).
Obviamente, após os gregos, muitas compreensões acerca da linguagem foram oferecidas no mundo ocidental, mas estiveram sempre ligadas, de uma ou outra forma, aos antigos gregos, principalmente a Platão e Aristóteles. Em todo caso, distante desses fabulosos pensadores da humanidade, mas não muito longe dos tempos de agora, no século XIX, existiam entre os estudiosos duas linhas de interpretação bastante conhecidas sobre as origens da linguagem: (i) compreendida a partir de gritos instintivos de prazer e dor; (ii) compreendida a partir de mímesis (ações imitativas) de grunhidos de animais como estratégia de caça (AITCHISON, 1996).
Mesmo que os cuidados com a linguagem tenham principiado com o uso da palavra oral, enfatizando uma sofisticada arte técnica nos processos de memorização ligados à música, poesia e métrica, a escrita representou uma modificação cultural sem precedentes para os gregos, consequentemente, para o mundo ocidental. A civilização letrada na qual a Grécia se tornou permitiu que os homens experimentassem a palavra crítica com uma força sintática bastante poderosa, capaz de formular pensamentos hipotéticos que, gradualmente, foram corresponsáveis no processo de revolução da escrita e do pensamento na Grécia Antiga. Nesse sentido, de acordo com Aristóteles, a hermeneía (comunicação, manifestação do pensamento) passa a ser expressão evolutiva do sujeito vivo e pensante, diante das modificações naturais exigidas pelo próprio senhor de tudo e todos: o tempo. Nessa direção, a linguagem humana passa a ser aquilo que se destaca como dever e direito social, à medida que conserva por natureza o seio familiar como ambiente motivador para a comunicação e a expressão individual, que se espelha sempre no outro, no que um igual pronuncia, enuncia e faz em vida. Isto porque nasceu dotado de linguagem na linha evolutiva do homo sapiens.
III. ÚLTIMAS REFLEXÕES. Desde o século VIII a.C., aproximadamente, até os séculos XIX/XX, a lógica aristotélica e suas considerações sobre o conhecimento e a linguagem pouco sofreram alterações. O pensamento ocidental, de fato, respeitosamente se serviu dela até o filósofo e matemático alemão Gottlob Frege. Apesar disso, o que fica acerca da palavra oral e escrita é a transformação pela qual a linguagem passa. Desde a visão fantasiosa da mitologia até à lógica de Aristóteles ou Frege, o recorte da realidade oferecido pela oralidade (uso do idioma como recurso auditivo) transmite um mundo bem mais imediato e pronto para uma linguagem que seja capaz de descrevê-lo como o palco das emoções e expectativas humanas; ao passo que o recorte dado por uma sociedade invadida pelo letramento (uso do idioma como recurso gráfico, visual) é bem mais complexo e raciocinativo, algo não muito típico das culturas não letradas, como acontece às comunidades indígenas do Brasil no Período Colonial.
A linguagem verbal, portanto, dividida em oral e escrita passa a assumir duas realidades linguísticas completamente separadas: ao ponto de uma não depender de outra. Ao ponto de evolução cultural não ter ligação alguma com o processo de letramento e alfabetização, que mostra a potência da linguagem humana não submetida às regras e amarras da grafia. Nesse sentido, a palavra oral é imediata, natural e fluida; enquanto a escrita é pensada e planejadamente organizada entre coesão, coerência e unidade. De toda forma, usar linguagem é sinal de ser não apenas humano, mas de ser pensante.
A linguagem verbal, portanto, dividida em oral e escrita passa a assumir duas realidades linguísticas completamente separadas: ao ponto de uma não depender de outra. Ao ponto de evolução cultural não ter ligação alguma com o processo de letramento e alfabetização, que mostra a potência da linguagem humana não submetida às regras e amarras da grafia. Nesse sentido, a palavra oral é imediata, natural e fluida; enquanto a escrita é pensada e planejadamente organizada entre coesão, coerência e unidade. De toda forma, usar linguagem é sinal de ser não apenas humano, mas de ser pensante.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AITCHISON, J. The seeds of speech: language origin and evolution. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
FITCH, W. T. The Evolution of language. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
SPRAGUE, R. K. The older sophists. Columbia: University of South Carolina Press, 1972.
PLATÃO. Teeteto e Crátilo. Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém, Editora da Universidade Feral do Pará, 1988.
ARISÓTELES. Órganon. Vol. II. Traducciones Miguel Candel Sanmartín. Madrid: Gredos, 1995.
PLATÃO. Teeteto e Crátilo. Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém, Editora da Universidade Feral do Pará, 1988.
ARISÓTELES. Órganon. Vol. II. Traducciones Miguel Candel Sanmartín. Madrid: Gredos, 1995.
